A CORAGEM DE ESCOLHER A SI MESMO
Amigas e amigos,
Hoje é um dia que parece repetido para quem olha de fora.
Fotos, ternos, protocolos.
Mas para quem sente por dentro, como vocês e como eu, esse dia é único.
É o dia em que vocês não apenas recebem uma credencial.
É o dia em que assumem, com o peso da institucionalidade e a leveza do sonho, o compromisso de se tornarem advogadas e advogados.
Mas antes de falarmos da profissão, eu quero voltar alguns passos.
Quero convidar vocês a lembrar de uma escolha.
Aquela que talvez vocês tenham feito ainda adolescentes.
Ou talvez ela tenha sido feita por vocês.
Talvez tenham dito que era o caminho mais respeitável.
Ou o mais seguro.
Ou o mais promissor.
Mas há um risco escondido nesse tipo de conselho.
Jim Carrey contou, em um dos discursos de formatura mais marcantes que já vi, que seu pai queria ser comediante.
Mas teve medo.
Escolheu ser contador.
E mesmo assim… perdeu o emprego.
A lição foi clara:
Você pode fracassar até fazendo o que não ama. Então por que não escolher fazer o que ama?
E eu diria mais:
Por que não escolher viver o que você é?
Não o que esperam de você.
Não o que dá status.
Não o que parece certo, mas não vibra dentro.
A advocacia, meus amigos, é muito mais do que um ofício.
Ela pode ser se vocês quiserem um caminho de revelação.
De vocês para o mundo.
E do mundo para vocês.
Mas ela exige algo que pouca gente fala:
a coragem de estar presente.
Não presente no fórum, presente no processo, presente na pauta.
Mas presente em si.
Na escuta.
Na escolha.
Na ação.
Jim dizia que muitos vivem a vida inteira guiados por uma voz disfarçada.
A voz do medo.
Mas esse medo, dizia ele, vem disfarçado de prudência, de planejamento, de responsabilidade.
É o medo que sussurra: “Melhor não arriscar”, “melhor não tentar”, “melhor não mostrar demais quem você é”.
Mas ele também dizia algo que nunca mais esqueci:
“Tudo o que você precisa já existe dentro de você.”
A dúvida é se você vai confiar.
E aqui entra a advocacia.
Uma profissão que testa, desafia, provoca.
Que convida a lutar pelo outro…
mas, às vezes, exige que a gente lute por nós mesmos primeiro.
Vocês terão dias em que vão duvidar.
Em que parecerá mais fácil ceder.
Mais prático calar.
Mais rápido deixar passar.
E é nesse exato momento que a escolha aparece novamente:
Você vai continuar fazendo o que o medo autoriza?
Ou vai escolher o que faz sentido, mesmo que custe?
Eu entrego a vocês hoje uma credencial.
Mas o que mais desejo entregar é a permissão para viver com inteireza.
Para serem advogados que não apenas vencem causas,
mas que transformam vidas começando pela própria.
Não deixem que a profissão endureça o que em vocês é mais precioso:
a intuição, o senso de justiça, a presença, a empatia.
A tecnologia pode resolver muitas coisas.
Mas ela nunca vai sentir a dor do cliente.
Nunca vai ter arrepio diante de uma injustiça.
Nunca vai se emocionar com um reencontro de dignidade.
Esse é o lugar que ainda é nosso.
E que precisa ser cuidado.
Jim Carrey disse que a nossa missão é deixar que o mundo veja quem realmente somos.
Mas que para isso, é preciso fé.
Não uma fé institucionalizada.
Mas uma fé mais íntima:
a fé de que ser inteiro vale mais do que parecer certo.
A fé de que viver com propósito não é arriscado,
Arriscado é viver pela metade.
Então, se é para arriscar, que seja sendo você.
Se é para lutar que seja por algo que importa.
Se é para advogar que seja com alma.
Parabéns.
Hoje, vocês se inscrevem na OAB.
Mas se quiserem, também podem se inscrever na vida com coragem.
A advocacia do futuro precisa de vocês.
Inteiros. Humanos. Presentes.
Muito obrigado.