Boa tarde.
Hoje é um daqueles dias que vocês imaginaram muitas vezes.
Alguns imaginaram durante cinco anos.
Outros durante muito mais.
Imaginaram a roupa que vestiriam.
Imaginaram o momento de ouvir o próprio nome.
Imaginaram o instante de receber a carteira.
Imaginaram a fotografia.
Imaginaram a postagem.
Imaginaram a legenda.
E depois de tanto tempo esperando por este dia, finalmente ele chegou.
E eu preciso começar com uma notícia que talvez ninguém tenha contado para vocês.
A parte fácil acabou.
Parabéns.
Vocês escolheram uma profissão em que não existe fase bônus.
Não existe modo fácil.
Não existe tutorial.
Não existe atualização do sistema que resolva tudo.
Existe você.
Uma pessoa.
Diante de outra pessoa.
Tentando resolver um problema real.
E é justamente por isso que a advocacia continua indispensável.
E talvez não exista lugar melhor para compreender isso do que Rondônia.
Um estado jovem.
Construído por gente que atravessou distâncias, enfrentou dificuldades e decidiu permanecer.
Um estado que nasceu do encontro de pessoas vindas de todas as partes do Brasil.
Um estado que aprendeu desde cedo que desenvolvimento não é apenas construir estradas.
É construir confiança.
É construir instituições.
É construir pontes.
E a advocacia rondoniense ajudou a construir cada uma dessas pontes.
Muitos dos direitos que hoje parecem naturais só existem porque antes houve uma advogada ou um advogado disposto a defendê-los.
Muitas das instituições que hoje sustentam nossa democracia só permanecem de pé porque houve quem tivesse coragem de protegê-las.
Hoje, ao ingressarem na Ordem dos Advogados do Brasil, vocês passam a fazer parte dessa história.
Mas também passam a ser responsáveis pelo próximo capítulo dela.
Vivemos uma época fascinante.
Uma época em que algoritmos escrevem textos.
Máquinas produzem petições.
Sistemas analisam precedentes.
Softwares organizam informações em segundos.
Mas existe uma pergunta que nenhuma tecnologia conseguiu responder.
O que fazer quando uma pessoa chega até você carregando medo?
O que fazer quando alguém senta na sua frente depois de perder um emprego?
Depois de perder uma empresa?
Depois de perder a guarda de um filho?
Depois de perder a esperança?
Nenhum algoritmo sente o peso desse silêncio.
Nenhuma máquina compreende a densidade desse encontro.
E é por isso que vocês estão aqui.
Não para competir com máquinas.
Mas para desenvolver aquilo que nenhuma máquina consegue ser.
Humano.
Quando recebi minha carteira, eu acreditava que a advocacia era principalmente sobre respostas.
Hoje, depois de muitos anos, descobri que a advocacia é muito mais sobre perguntas.
Perguntas que revelam o que ninguém percebeu.
Perguntas que mudam o rumo de uma audiência.
Perguntas que evitam um conflito.
Perguntas que devolvem dignidade.
Perguntas que fazem alguém se sentir ouvido.
Porque a verdade é que o Direito não acontece nos códigos.
O Direito acontece entre pessoas.
Os códigos existem para servir esse encontro.
Nunca o contrário.
E permitam-me compartilhar algo que aprendi liderando a OAB Rondônia.
As maiores vitórias da advocacia raramente começam em grandes discursos.
Elas começam quando alguém decide não ficar em silêncio.
Quando alguém decide defender uma prerrogativa.
Quando alguém decide proteger um colega.
Quando alguém decide permanecer de pé mesmo quando seria mais confortável recuar.
É assim que a advocacia avança.
Não por heroísmos extraordinários.
Mas por pequenas demonstrações diárias de coragem.
Vocês estão ingressando na profissão em um momento de transformação histórica.
Muita gente olha para a inteligência artificial e enxerga uma ameaça.
Eu enxergo um convite.
Um convite para redescobrirmos aquilo que sempre foi o centro da nossa profissão.
A escuta.
A presença.
A empatia.
O discernimento.
A coragem moral.
Porque quanto mais tarefas forem automatizadas, mais valioso se tornará aquilo que não pode ser automatizado.
Vocês.
E aqui está algo importante.
Não permitam que a carteira que recebem hoje se transforme em um pedestal.
Transformem-na em uma ponte.
Uma ponte entre conflitos e soluções.
Uma ponte entre medo e segurança.
Uma ponte entre pessoas que deixaram de se ouvir.
Uma ponte entre a sociedade e a Justiça.
Uma ponte entre o presente e o futuro.
Se um dia esta carteira servir apenas para distinguir vocês dos outros, ela terá falhado.
Mas se ela servir para aproximar pessoas, então ela terá cumprido sua missão.
E essa missão ganha ainda mais relevância em um tempo marcado por profundas transformações tecnológicas, sociais e institucionais.
Vivemos a era da informação abundante.
Mas também da desinformação em escala.
Da conectividade permanente.
Mas, muitas vezes, da escuta cada vez mais rara.
Da inteligência artificial.
Mas também da necessidade crescente de inteligência ética.
Nesse cenário, a advocacia não pode ser apenas uma profissão que acompanha as mudanças.
Ela precisa ser uma profissão que ajuda a orientar as mudanças.
Que defende direitos sem abrir mão de princípios.
Que incorpora inovação sem relativizar responsabilidades.
Que utiliza novas ferramentas sem perder de vista os valores que sustentam o Estado Democrático de Direito.
Porque o futuro não será definido apenas pela tecnologia que desenvolvermos.
Será definido, sobretudo, pelos limites éticos que tivermos a coragem de preservar.
E essa missão exige algo que vale tanto quanto o conhecimento jurídico: lealdade.
Lealdade com o cliente.
Lealdade com os colegas.
Lealdade com as instituições.
Lealdade com a verdade dos fatos.
A consciência do advogado é indelegável.
A responsabilidade do advogado é indelegável.
Vocês poderão contar com equipes.
Com softwares.
Com bancos de dados.
Com inteligência artificial.
Mas jamais poderão terceirizar o próprio julgamento ético.
Jamais poderão transferir a alguém, ou a alguma tecnologia, o dever de conferir, refletir e responder pelos atos praticados em nome de um cliente.
A tecnologia pode auxiliar.
Pode acelerar.
Pode ampliar capacidades.
Mas não substitui o dever de integridade.
No final, a responsabilidade nunca será da máquina.
Sempre será de quem decide utilizá-la.
Por isso, quando saírem daqui hoje, não levem apenas uma carteira.
Levem uma responsabilidade.
Porque esta carteira não é um prêmio pelo que vocês fizeram.
É uma confiança depositada naquilo que vocês ainda farão.
A partir de hoje, haverá pessoas que chegarão até vocês em alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas.
Pessoas que perderam patrimônio.
Pessoas que perderam liberdade.
Pessoas que perderam relacionamentos.
Pessoas que perderam esperança.
E, muitas vezes, antes de encontrarem uma solução jurídica, elas encontrarão vocês.
É por isso que a advocacia nunca foi apenas uma profissão.
Ela é uma forma de presença.
Uma forma de serviço.
Uma forma de cuidado.
Uma forma de defesa da dignidade humana.
O mundo que vocês encontrarão lá fora será cada vez mais veloz.
Mais automatizado.
Mais orientado por métricas.
Mais dominado por sistemas.
Mas nunca se esqueçam:
nenhum sistema é capaz de substituir uma consciência reta.
Nenhuma tecnologia é capaz de substituir uma coragem verdadeira.
Nenhum algoritmo é capaz de substituir um ser humano disposto a fazer o que é certo quando fazer o que é certo tem um custo.
E é exatamente para isso que a sociedade precisa da advocacia.
Não para facilitar o caminho.
Mas para proteger aquilo que não pode ser negociado.
A liberdade.
A Justiça.
A dignidade.
A verdade.
Daqui a muitos anos, vocês provavelmente esquecerão parte desta cerimônia.
Esquecerão algumas palavras.
Esquecerão algumas formalidades.
Mas espero que nunca esqueçam isto:
a grandeza da advocacia não está na carteira que vocês recebem.
Está nas vidas que vocês tocarão por causa dela.
Está nas injustiças que impedirão.
Está nas vozes que defenderão.
Está nos direitos que protegerão.
Está nas pessoas que voltarão para casa mais seguras porque um dia encontraram um advogado disposto a estar ao lado delas.
E quando esse dia chegar, vocês compreenderão que o verdadeiro compromisso que assumiram hoje não foi apenas com uma instituição.
Foi com uma missão.
A missão de lembrar, todos os dias, que a Justiça existe para servir pessoas.
E permitam-me acrescentar algo.
Nesta sala estão sentados os novos advogados e advogadas de Rondônia.
Mas o futuro da advocacia rondoniense não está sentado nesta sala.
O futuro da advocacia rondoniense está de pé.
Porque o futuro não é um lugar para onde vocês irão.
É um lugar que vocês começarão a construir quando saírem por aquelas portas.
Cada atendimento.
Cada audiência.
Cada sustentação oral.
Cada petição.
Cada cliente acolhido.
Cada prerrogativa defendida.
Cada injustiça enfrentada.
Será um tijolo colocado na construção da advocacia que existirá amanhã.
E essa construção começa hoje.
Começa aqui.
Na sede da OAB Rondônia.
A casa da advocacia.
A casa da liberdade.
A casa daqueles que acreditam que nenhuma sociedade permanece verdadeiramente livre quando a voz da defesa é silenciada.
Parabéns.
Que Deus abençoe cada um de vocês.
Que lhes conceda sabedoria para decidir.
Coragem para defender.
Humildade para aprender.
E grandeza para servir.
Sejam bem-vindos à advocacia.
Sejam bem-vindos à Ordem dos Advogados do Brasil.
E sejam bem-vindos à extraordinária responsabilidade de cuidar da liberdade humana.
Ascom OAB/RO