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LEIA O DISCUSO DO PRESIDENTE EM VILHENA: “A maior disputa do nosso tempo não é entre homem e máquina. É entre presença e distração”

Página Inicial / LEIA O DISCUSO DO PRESIDENTE EM VILHENA: “A maior disputa do nosso tempo não é entre homem e máquina. É entre presença e distração”

Entrega de credenciais acontecer na terça-feira (26/05) em Vilhena

Hoje vocês recebem a carteira da OAB.

Mas é preciso compreender exatamente o que isso significa.

Uma carteira profissional não transforma automaticamente alguém em advogado.

Ela apenas abre a porta.

A travessia começa depois.

Porque a advocacia não é apenas uma autorização formal.

A advocacia é uma forma de presença no mundo.

E toda presença começa por uma coisa simples, silenciosa e decisiva:

atenção.

Sem atenção, ninguém escuta.

Sem escuta, ninguém compreende.

Sem compreensão, ninguém defende.

E sem defesa verdadeira, a advocacia vira apenas burocracia com assinatura.

Percebam a cadeia.

O advogado que não presta atenção não percebe o cliente.

O advogado que não percebe o cliente não entende o conflito.

O advogado que não entende o conflito erra a estratégia.

O advogado que erra a estratégia pode até movimentar um processo, mas não conduz uma causa.

E a advocacia não existe para apenas movimentar processos.

A advocacia existe para proteger pessoas.

Por isso, a grande disputa do nosso tempo não é apenas entre homem e máquina.

É entre presença e distração.

Entre profundidade e superficialidade.

Entre consciência e automatismo.

Observem o mundo.

Tudo hoje disputa a nossa atenção.

O celular vibra.

A tela acende.

A notificação chama.

O vídeo curto prende.

A rolagem não termina.

Nada disso é acidental.

Uma plataforma digital é construída para uma finalidade muito clara:

capturar a permanência da sua mente.

Quanto mais tempo você permanece nela, mais valor ela extrai de você.

E aqui está o ponto.

Quando uma pessoa repete todos os dias o gesto da interrupção, ela treina a própria mente para se interromper.

Quando repete todos os dias o gesto da dispersão, treina a própria mente para se dispersar.

Quando repete todos os dias o gesto da pressa, treina a própria mente para perder paciência com tudo que exige profundidade.

É como o corpo.

Um corpo que não levanta peso perde força.

Uma respiração que nunca enfrenta esforço perde fôlego.

Uma raiz que nunca enfrenta vento não se aprofunda.

Com a mente acontece o mesmo.

A atenção também é músculo.

Se é treinada, fortalece.

Se é abandonada, enfraquece.

Então vejam a consequência.

Uma mente treinada para estímulos rápidos começa a ter dificuldade com leituras longas.

Depois, começa a ter dificuldade com conversas profundas.

Depois, começa a ter dificuldade com silêncios.

Depois, começa a ter dificuldade com decisões complexas.

E quando uma sociedade inteira perde a capacidade de permanecer diante da complexidade, ela começa a decidir por impulso.

Primeiro perde atenção.

Depois perde profundidade.

Depois perde discernimento.

Depois perde prudência.

E quando se perde prudência, a justiça corre perigo.

Porque justiça não é velocidade.

Justiça não é cálculo.

Justiça não é simples processamento de informações.

Justiça exige discernimento humano diante de uma situação concreta.

E é aqui que entra a advocacia.

Vocês estão entrando numa profissão que exige exatamente aquilo que o mundo está desaprendendo:

permanecer.

Permanecer diante de um cliente angustiado.

Permanecer diante de uma história difícil.

Permanecer diante de um processo complexo.

Permanecer diante de uma injustiça quando seria mais confortável desviar o olhar.

O cliente chega ao advogado trazendo um problema jurídico.

Mas, quase sempre, o problema jurídico é apenas a superfície.

Ele fala de um contrato.

Mas por baixo existe medo.

Ele fala de uma dívida.

Mas por baixo existe vergonha.

Ele fala de uma disputa familiar.

Mas por baixo existe abandono.

Ele fala de uma acusação.

Mas por baixo existe desespero.

O advogado distraído escuta apenas o pedido.

O advogado presente percebe a pessoa.

E essa diferença muda tudo.

Porque quem escuta apenas o pedido entrega uma resposta técnica.

Quem percebe a pessoa constrói uma defesa verdadeira.

É por isso que nenhuma tecnologia, por mais poderosa que seja, elimina a necessidade da advocacia.

A máquina organiza dados.

A máquina encontra padrões.

A máquina acelera tarefas.

Mas a máquina não assume responsabilidade moral.

Ela não olha nos olhos de alguém.

Ela não percebe a hesitação na voz.

Ela não entende o peso de uma humilhação.

Ela não distingue uma urgência processual de uma urgência existencial.

A máquina calcula.

O advogado responde.

E responder significa assumir a responsabilidade humana diante de outro ser humano.

Mas para isso vocês precisarão proteger a própria atenção.

Porque ninguém defende bem aquilo que não consegue enxergar.

Ninguém enxerga bem aquilo que não consegue contemplar.

Ninguém contempla aquilo diante do qual não consegue permanecer.

Essa é a ordem.

Atenção gera presença.

Presença gera compreensão.

Compreensão gera estratégia.

Estratégia gera defesa.

Defesa gera justiça.

Agora, permitam-me avançar para outro ponto.

A vida profissional de vocês será difícil.

E isso não é uma ameaça.

É uma condição de crescimento.

Tudo que se fortalece encontra resistência.

O músculo cresce contra o peso.

A raiz cresce contra a dureza da terra.

O caráter cresce contra a facilidade.

A coragem cresce contra o medo.

A maturidade cresce contra a frustração.

Nada profundo nasce sem resistência.

Por isso, uma geração que tenta eliminar todo desconforto elimina também as condições do próprio amadurecimento.

Se uma pessoa nunca enfrenta espera, não desenvolve paciência.

Se nunca enfrenta contrariedade, não desenvolve equilíbrio.

Se nunca enfrenta derrota, não desenvolve humildade.

Se nunca enfrenta pressão, não desenvolve firmeza.

Se nunca enfrenta dificuldade, não desenvolve força.

Aqui está a cadeia.

Sem dificuldade, não há resistência.

Sem resistência, não há fortalecimento.

Sem fortalecimento, não há maturidade.

Sem maturidade, não há serenidade.

Sem serenidade, não há liderança.

E a advocacia exige liderança.

Não necessariamente liderança de cargo.

Mas liderança de postura.

O advogado é chamado a permanecer firme quando o cliente está perdido.

A falar com clareza quando todos estão confusos.

A sustentar uma tese quando ela ainda parece solitária.

A defender uma prerrogativa quando muitos preferem o silêncio.

A proteger a dignidade quando o sistema começa a tratar pessoas como números.

Por isso, não fujam das coisas difíceis.

Façam coisas difíceis.

Leiam textos difíceis.

Estudem temas difíceis.

Entrem em conversas difíceis.

Aprendam a suportar frustração sem se desorganizar por dentro.

Aprendam a ouvir críticas sem transformar tudo em ferida.

Aprendam a perder sem perder a dignidade.

Aprendam a vencer sem perder a humildade.

Porque a advocacia formará vocês justamente naquilo que ela exigir de vocês.

Se exigir estudo, formará inteligência.

Se exigir coragem, formará firmeza.

Se exigir paciência, formará maturidade.

Se exigir presença, formará humanidade.

Mas isso só acontecerá se vocês não fugirem da formação.

O ferro que evita o fogo nunca vira espada.

A semente que evita a terra nunca vira árvore.

A pessoa que evita todo peso nunca se torna forte.

E o advogado que evita toda dificuldade nunca se torna grande.

Por isso, nesta manhã, eu não desejo a vocês apenas sucesso.

Sucesso é pouco.

Eu desejo profundidade.

Desejo que vocês construam uma vida profissional capaz de permanecer de pé quando o mundo inteiro estiver acelerado demais para pensar.

Desejo que sejam fortes sem se tornarem duros.

Que sejam tecnológicos sem se tornarem automáticos.

Que sejam eficientes sem perderem a capacidade de olhar nos olhos de alguém e perceber ali um ser humano inteiro.

Porque a verdadeira tragédia do nosso tempo não será o avanço das máquinas.

Será o encolhimento da consciência humana.

Será quando pessoas começarem a aceitar viver sem silêncio, sem reflexão, sem presença e sem sentido.

E é exatamente contra isso que a advocacia, no seu sentido mais profundo, existe.

A advocacia existe para lembrar que ninguém pode ser reduzido a número.

Que ninguém pode ser reduzido a dado.

Que ninguém pode ser reduzido a estatística.

Toda vez que um advogado se levanta para defender alguém, ele está afirmando uma coisa simples e gigantesca:

“esta pessoa importa.”

E talvez seja isso que vocês realmente recebam hoje.

Não apenas uma habilitação profissional.

Mas a responsabilidade de sustentar essa afirmação dentro da sociedade.

A responsabilidade de permanecer humano quando tudo empurra para o automático.

De permanecer consciente quando tudo empurra para distração.

De permanecer profundo quando tudo recompensa superficialidade.

De permanecer firme quando tudo estimula desistência.

E entendam:

o mundo não será transformado pelas pessoas que apenas acompanham o fluxo do tempo.

O mundo será transformado pelas pessoas capazes de sustentar consciência dentro dele.

Pelas pessoas capazes de permanecer.

Pelas pessoas capazes de prestar atenção.

Pelas pessoas capazes de enfrentar o difícil sem perder a alma.

Por isso, quando saírem daqui hoje, lembrem-se:

a carteira que vocês recebem abre portas.

Mas aquilo que definirá quem vocês se tornarão será o modo como vocês usarão a própria consciência ao longo da caminhada.

Porque o futuro não pertencerá aos mais rápidos.

Nem aos mais barulhentos.

Nem aos mais adaptados aos algoritmos.

O futuro pertencerá às pessoas capazes de continuar humanas num mundo cada vez mais artificial.

E é exatamente isso que eu espero que vocês se tornem.

Muito obrigado.

Fonte da Notícia:

Ascom OAB/RO

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