Existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta o dia em que recebe a carteira da OAB. Não é “vou conseguir clientes?” Não é “o mercado está difícil?” Não é “vou ganhar dinheiro? ” A pergunta real, a que fica no fundo do peito, é esta:Tenho coragem para isso?
E eu estou aqui esta manhã para dizer que sim. Que você tem. E que essa coragem já está provada pelo simples fato de você estar aqui.
Mas antes de falar sobre coragem, preciso falar sobre a beca. A beca não é enfeite. Não é protocolo. Não é a fantasia de quem passou no exame da OAB. A beca é uma declaração pública. Ela tem origem secular. Vem das universidades medievais europeias, onde os doutores do direito a vestiam para indicar que estavam a serviço de algo maior do que eles mesmos. Que pertenciam a uma ordem. Que respondiam por suas palavras e por seus atos diante da sociedade e da história. Quando você veste a beca, você não está dizendo eu sei direito. Você está dizendo: eu me comprometo a defender o direito.
Essa é uma diferença enorme. Saber é intelectual. Defender é moral. O saber você adquiriu na faculdade. Defender você vai construir ao longo da vida, em cada momento em que for mais fácil recuar do que avançar. Em cada momento em que um ser humano em desamparo precisar ouvir de alguém: eu vou te defender. Isso exige coragem. Não a coragem do herói de filme. A coragem cotidiana, silenciosa e exigente, de quem escolhe uma profissão que, por definição, coloca o outro no centro. Sempre. Mesmo quando dói. Mesmo quando custa.
E Pimenta Bueno sabe o que essa coragem parece. Esta cidade foi construída por gente que veio de longe, que desbravou, que ficou.
Olhem para esta mesa. Prefeita. Juízes. Presidente da câmara. Defensor público. Delegado.Comandante da PM. Cada um deles representa uma forma diferente de servir. E todos estão aqui porque entendem que quando a advocacia se fortalece, a justiça se fortalece.
Vocês não entram numa profissão. Vocês entram numa linhagem. E esta manhã, essa linhagem tem dois rostos que eu preciso que vocês guardem. O primeiro é o da paraninfa de vocês. A Dra. Ellen Corso Henrique de Oliveira está aqui não apenas como autoridade protocolada num roteiro de cerimonial.Está aqui como testemunha. Como alguém que escolheu a mesma profissão que vocês estão escolhendo agora e decidiu, com a presença, dizer aos que chegam essa profissão vale a pena.
O paraninfo não é quem faz o discurso mais bonito.É quem, pela trajetória, encarna o que os novos advogados ainda vão se tornar. Dra. Ellen, obrigado por aceitar esse papel. Que estes novos advogados olhem para você e enxerguem, com clareza, o que é possível fazer quando a beca é levada a sério.
O segundo nome é o que mais me toca esta manhã. Dra. Sônia Maria Camargo Cardoso. Natural de Jandaia do Sul, no Paraná. Inscrita na OAB de São Paulo em dezembro de 1975.Dezembro de 1975. Deixa isso pousar um momento. Naquele ano, o Brasil ainda vivia sob ditadura militar. A Constituição de 1988 era apenas uma esperança distante. Rondônia nem era ainda um estado. Era território federal. E ela escolheu, naquele tempo, ser advogada. Em abril de 1979, transferiu-se para Rondônia. Chegou antes da criação do estado. Chegou antes de quase tudo. E ficou. Há quarenta e sete anos, a Dra. Sônia plantou raiz nesta terra quando esta terra ainda estava sendo inventada. Ela não encontrou uma advocacia estabelecida aqui.Ela ajudou a construí-la. E em toda essa trajetória, cinquenta anos desde a primeira inscrição, nenhuma penalidade disciplinar. Nenhuma. Cinquenta anos. Frente erguida. Sem uma penalidade. Isso não é sorte.Isso é caráter. Isso é a escolha diária, repetida por meio século, de exercer a profissão do jeito certo. Dra. Sônia, esta casa se levanta diante da senhora. Não pela quantidade de anos. Mas pela qualidade de cada um deles. E pela coragem de ter chegado aqui quando chegar aqui ainda exigia tudo.
E aos novos advogados e advogadas que hoje recebem seus cartões,olhem para ela. Do Paraná a São Paulo. De São Paulo a Rondônia. Antes do estado existir. Cinquenta anos de frente erguida. É isso que vocês estão escolhendo ser. Antes de encerrar,preciso registrar algo que aconteceu há poucos dias [PAUSA] e que diz muito sobre o tempo que vocês estão escolhendo para entrar nessa profissão.
Em março, no mês da mulher,na 501ª sessão do nosso Conselho Seccional, a OAB Rondônia fez duas coisas que não tinha feito nunca antes.A primeira: aprovamos a lista para o TRE- RO composta exclusivamente por mulheres.Pela primeira vez na história do nosso estado. Seis nomes.Seis advogadas. Uma lista inteira que disse ao Judiciário rondoniense: o espaço de poder também é delas. A segunda: nessa mesma sessão, o Conselho Seccional votou pela exclusão definitiva de um advogado condenado por estupro de vulnerável contra a própria enteada, uma jovem com deficiência intelectual grave.
Com a clareza de quem entende que a advocacia é, antes de qualquer coisa, um compromisso moral.Num mesmo dia, numa mesma sessão, a OAB Rondônia abriu uma porta e fechou outra. Disse quem pertence a esta profissão e disse quem não pode mais pertencer. Isso é o que uma instituição faz quando está à altura do que representa.
E a vocês, novos advogados e advogadas de Pimenta Bueno, quero deixar uma última coisa. Há um escritor britânico chamado Neil Gaiman. Em Coraline, um dos livros mais conhecidos que escreveu, uma criança pergunta o que é coragem. E a resposta é esta: coragem é quando você sente medo de fazer algo e faz mesmo assim. Não é a ausência do medo. É a decisão de agir apesar dele. Foi esse mesmo homem que, diante de jovens artistas prestes a entrar numa profissão difícil, incerta, sem garantias, disse que quando você não sabe o que fazer, continue fazendo a próxima coisa certa. Continue caminhando. Mesmo com medo. Mesmo na dúvida. Porque é o movimento que revela o caminho, não o contrário. Ele falava de arte. Mas estava descrevendo a advocacia. Você não vai saber tudo no primeiro dia. Vai errar. Vai se perguntar se está no lugar certo. Vai enfrentar casos que parecem não ter saída e momentos em que o mais fácil seria desistir. Mas você vai continuar. Porque escolheu isso. Porque jurou isso. Porque a beca que você vai vestir agora é mais do que tecido e símbolo. É a escolha pública, diante de uma comunidade inteira, de colocar o outro antes de você mesmo. Olhem para a Dra. Ellen. Olhem para a Dra. Sônia. Antes do estado existir. Cinquenta anos. Frente erguida. Sem uma penalidade. É isso que essa beca significa quando levada até o fim.
Bem-vindos à advocacia. Bem-vindos à OAB Rondônia. Bem-vindos à linhagem de Pimenta Bueno.