Boa tarde.
Cumprimento as autoridades da mesa e neles cumprimento todos os que compõem esta mesa. Cumprimento as famílias. E cumprimento, um por um, os advogados e advogadas que acabaram de prestar compromisso.
Eu vou começar por uma confissão, e ela não é confortável.
Eu não gostei dos meus primeiros anos de advocacia.
Isso não é o que se diz numa solenidade. O que se diz é que a profissão é bonita, que o caminho vale a pena, que vocês vão longe. E tudo isso é verdade. Mas se eu ficar só nisso, vocês vão sair daqui achando que o desconforto que vão sentir nos próximos meses é um defeito de vocês. Não é.
Eu nasci em Guajará-Mirim. Sou o primeiro advogado da minha família. Na minha casa não havia estante com códigos. Não havia escritório para herdar. Não havia ninguém que pudesse me explicar o que era um agravo, o que era uma sustentação oral, o que era entrar num fórum e ser olhado de cima para baixo por alguém que já tinha decidido, antes de eu abrir a boca, que eu não pertencia àquele lugar.
Eu me lembro do dia seguinte ao meu compromisso. Abri a carteira, olhei o número, fechei, abri de novo. Como se o número pudesse ter mudado durante a noite. Depois fiquei sentado, sem saber o que fazer com aquilo.
Ninguém ensina o que fazer no dia seguinte.
Foram anos difíceis. E, ao mesmo tempo, foi ali que eu aprendi tudo que sustenta o que eu sou hoje. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e vocês vão precisar aprender a segurar as duas.
Eu quero que vocês voltem por um instante ao gesto que fizeram há pouco.
Em quase todo juramento deste país se levanta a mão direita. A mão vai para o alto, para a autoridade, para quem está acima. Na advocacia, não. Na advocacia a mão desce e para no peito.
Aquele é o único compromisso deste país em que ninguém jura obediência. Nós não juramos a um poder. Juramos a uma consciência.
E isso tem uma consequência prática que vocês vão sentir muito cedo. Ninguém vai fiscalizar vocês às onze da noite, sozinhos, decidindo se leem o processo inteiro ou se leem só a ementa. Ninguém vai estar lá quando vocês tiverem que dizer ao cliente a verdade que ele não quer ouvir. A mão fica no peito porque o que sustenta o advogado, quando não há ninguém olhando, é o que ele carrega ali.
Eu não vou mentir sobre o que vem pela frente.
Vocês vão perder causas que mereciam ganhar. Vão receber decisão de três linhas em processo de três anos. Vão sair de audiência com vontade de mudar de profissão, e alguns de vocês vão pensar seriamente nisso ainda no primeiro ano.
Eu já perdi feio. Já fui tratado com desprezo em sala de audiência, na frente do meu cliente, que era exatamente a pessoa que eu estava ali para proteger.
O que eu aprendi não foi a evitar o tombo, porque não dá.
O objetivo não é não fracassar. É se tornar alguém que o fracasso não consegue diminuir.
E é aqui que eu preciso dizer o que essa carteira significa.
Ela não é um diploma de superioridade. Ela é exatamente o contrário.
Ela existe porque, em algum lugar de Rondônia, hoje, há uma pessoa presa que não sabe do que está sendo acusada. Há uma mãe que não recebe pensão há oito meses. Há um trabalhador demitido sem verba rescisória fazendo conta para saber se a passagem até o fórum cabe no orçamento.
Nenhuma dessas pessoas precisa de um doutor.
Elas precisam de alguém que chegue.
Prerrogativa não é privilégio de advogado. Prerrogativa é direito do cliente, colocado nas mãos do advogado para que possa ser exercido.
Quando uma advogada é impedida de falar com seu cliente numa delegacia, não é ela que está sendo humilhada. É o cidadão que está sendo deixado sozinho diante do poder. Ela é apenas a porta. E quando fecham a porta, quem fica trancado do lado de dentro é o mais fraco.
Eu digo com todas as letras, e digo aqui, na sede desta Casa: enquanto eu for presidente, quem fechar a porta para uma advogada em Rondônia vai ter que explicar isso por escrito.
Sobre inteligência artificial, eu serei breve, porque vocês vão ouvir muito sobre isso e quase tudo será exagero, para um lado ou para o outro.
A máquina gera opções. Cem petições em quatro segundos, e algumas boas. O que ela não faz é escolher.
Ela não sabe qual argumento ganha a causa e humilha o cliente no caminho. Não sabe quando calar. Não sabe que aquele acordo, tecnicamente pior, é o único que aquela família aguenta.
Isso não é conhecimento jurídico. É juízo. E juízo não se treina em base de dados. Forma-se em consciência.
Se a sua petição pode ser escrita por uma máquina, o problema não é a máquina.
Nenhuma máquina põe a mão no peito.
Vocês não entraram numa profissão. Entraram numa fila.
Uma fila que começou muito antes de vocês e vai continuar muito depois. Nela há gente que enfrentou tempos em que defender era crime. Gente que abriu escritório em cidade sem fórum. Gente que morreu sem ver o próprio nome numa placa.
A Ordem dos Advogados do Brasil foi criada em 1930 e, desde então, nunca foi uma repartição. Foi sempre um incômodo. Atravessou ditadura, atravessou perseguição, atravessou governo que preferia que ela fosse mais silenciosa. E nunca foi.
O compromisso que vocês prestaram não foi feito a mim, nem a esta mesa. Foi feito a essa fila.
E a fila não pede genialidade de vocês. Pede quatro coisas comuns.
A primeira: escolher o importante em vez do urgente. Vocês vão descobrir que o urgente grita todos os dias, e o importante nunca liga.
A segunda: continuar estudando quando não souberem. E vocês não vão saber muitas vezes. Eu ainda não sei, e estou nisso há mais de vinte anos.
A terceira: fazer a sua parte do trabalho. Não a parte que aparece. A sua parte.
E a quarta, que é a mais difícil de todas: continuar aparecendo.
Advogado bom não é o que brilha uma vez. É o que aparece sempre.
E é por isso que ninguém aqui vai andar sozinho.
Guardem isto: onde tem advocacia, tem OAB. De Porto Velho a Guajará-Mirim, de Vilhena a Cacoal. E principalmente onde não tem plateia. Se um dia alguém tentar impedir vocês de trabalhar, vocês ligam, e a Ordem aparece. Não como favor. Como dever.
Eu termino com um desejo, e é um desejo estranho.
Vocês passaram anos para poder ser chamados de advogados. Meu desejo é que, daqui a trinta anos, ser advogado seja a coisa menos importante que as pessoas digam sobre vocês.
Que digam primeiro o nome de quem vocês defenderam.
Que digam que vocês chegaram quando ninguém mais chegou.
Que digam que, com vocês, alguém que não tinha voz falou.
E amanhã de manhã, quando vocês abrirem aquela carteira, fecharem, abrirem de novo, e descobrirem que o número não mudou, lembrem que quem muda são vocês.